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Segunda, 22 Abril 2019 16:26

Está na hora de controlar horímetros

Nelson Luís Margarido

Nelson Luís Margarido

Dir. Industrial na Korth RFID Ltda
Engenheiro Mecânico pela USP São Carlos

Está na hora de controlar horímetros KORTH GUARDIAN

Para o real gerenciamento de frotas, controle de Horímetros e odômetros é fundamental

Um bom gerenciamento de frota depende da correta manutenção dos equipamentos e de dados sólidos para cálculo de desempenho. E, nesta tarefa, o controle eficaz de odômetros e horímetros é essencial.

No entanto, os erros de digitação, que são muito frequentes, acabam transformando a gestão desses dados num verdadeiro caos, com quantidades enormes de números pouco confiáveis.

Mas existem procedimentos que, se implementados, podem melhorar e muito a qualidade da coleta de informações.

Em um ambiente ideal, os valores de horímetro e odômetro deveriam ser recebidos automaticamente pelo sistema, sem intervenção humana, com a adoção de dispositivos eletrônicos que transmitem dados durante o abastecimento. Esses tipos de dispositivo não são propriamente complicados de instalar e usar.

No entanto, quando se trata de grandes frotas, o custo de aquisição e manutenção regular desses equipamentos pode ser impeditivo.

É difícil saber porque os erros de digitação acontecem já que existem muitas variáveis que colaboram para isso, como falta de treinamento do pessoal; ambiente barulhento e sujo; números muito longos com casas decimais; falta de interesse na tarefa; falta de controle e ações por parte do administrador e etc. Assim sendo, um bom controle de horímetros deve acontecer em duas frentes: no campo, com treinamento e simplificação dos procedimentos e no sistema, com rotinas de validação que descartam números inadequados. De forma geral, é mais fácil (e mais barato) corrigir um erro do que tentar evitar que ele ocorra a qualquer custo.

Horímetro não é relógio!

Pode parecer estranho por causa do nome e da função, mas horímetro pouco tem a ver com relógios. Na verdade, horímetros fazem uma medição de tempo relativo, baseado em mecanismos muito simples e não precisos. Com exceção de horímetros digitais, mais comuns em equipamentos com injeção eletrônica, os horímetros mecânicos ou eletromecânicos apresentam erros de medição importantes que podem ser detectados com um procedimento muito simples. Basta ligar a máquina e simultaneamente acionar um cronômetro qualquer e você perceberá que em pouco tempo as medições vão começar a divergir. Mesmo máquinas idênticas, fabricadas ao mesmo tempo, apresentam diferença na medição mostrada por seus horímetros.

Então, isso significa que horímetros não servem para medir as horas de trabalho do motor? Não.Significa que horímetros apresentam números muito mais qualitativos do que quantitativos, ou seja, te dão um bom parâmetro para agendamento e cálculos de desempenho, mas suas medições trabalham com uma margem de erro grande já que, na prática, não precisam ser mais precisas. O mesmo ocorre com odômetros, já que suas medições não batem exatamente com a distância real percorrida. Nesse caso é até mais fácil perceber o motivo. Como a marcação dos odômetros dependem do número de voltas da roda do veículo, o simples desgaste dos pneus acarreta em um erro de medição de 1 a 2%.

Mas porque isso ocorre? A resposta é bastante simples: não é necessária uma precisão de segundos para se trocar uma peça, ou fazer um remonte de óleo, porque os motores não demandam isso. Lembre-se, quando o fabricante recomenda uma substituição de peça com, por exemplo, duas mil horas, ele na verdade está informado que a vida daquela peça deve durar em torno de duas mil horas e não “exatamente” duas mil horas. Ou seja, é um valor qualitativo, um parâmetro, não um valor quantitativo, um número absoluto.

A maior parte dos problemas decorrentes dos erros de digitação se deve a isso - um mau entendimento do que realmente significa o número que está sendo mostrado pelo instrumento. A partir do momento que se torna claro que esses números são apenas indicadores, que a precisão absoluta não é necessária, você poderá fazer uma série de simplificações que vão ajudar no seu dia-a-dia.

Em campo, trabalhe apenas com números inteiros

Quem já viu um abastecimento em campo sabe como é. Normalmente o comboísta (ou frentista) fica no chão e pergunta aos berros para o operador o valor do horímetro. Esse, por sua vez também responde aos berros (quase sempre tem barulho de outras máquinas no ambiente) e fala número por número. Imaginem um valor de horímetro de 100,8 horas. Alguns dizem cem “vírgula” oito horas, outros dizem cem “ponto” oito horas e a maioria diz: um, zero, zero, oito.

Quando a anotação não possui a vírgula no lugar certo, o número pode significar um valor até dez vezes maior que o real, ou seja, no exemplo acima ao invés de anotar 100,8 será anotado 1008 horas.

Para simplificar, você pode coletar apenas os números inteiros ficando um algarismo a menos para ser anotado e também diminuindo os erros decorrentes da posição da vírgula. Nesse caso, o maior erro que poderá ocorrer será de uma hora máquina o que, quase sempre, é insignificante. Isso vai exigir um pouco de treinamento mas facilitará a coleta e gerará menos dúvidas na hora de digitar os valores no sistema.

Para o sistema só deve haver uma fonte de informação

Não só o abastecimento, mas também toda a manutenção das máquinas depende dos valores de odômetros e horímetros para controlar seus serviços. É muito importante que essas áreas da empresa possuam essa informação, e quanto mais fiel forem os valores melhor será o resultado. Porém, quando se trata de um sistema informatizado, seja ele um ERP ou uma simples planilha de cálculos, não é conveniente que os lançamentos dos valores sejam sobrepostos.

Quando muitas pessoas diferentes apontam em suas planilhas os valores dos medidores, a chance de ocorrer um erro de digitação aumenta consideravelmente. O ideal é que apenas uma das entradas seja escolhida para ser a “oficial”, ou seja, aquela que vai alimentar o sistema informatizado e servir de base de cálculo para todos os eventos. Como o abastecimento é o procedimento mais frequente, que ocorre em intervalos pequenos, é comum que se use esse dado em detrimento dos outros, pois costuma estar mais atualizado. Informações que vem de oficina, borracharia, eletricista, etc não devem sobrepor esse dado.

Coloque inteligência no seu sistema

Na prática é muito difícil detectar erros de apontamento de horímetros e odômetros. Normalmente eles só aparecem quando são gritantes, exigindo alguma ação. A maioria dos bons sistemas de controle já possuem essas funções inteligentes para detectar erros de apontamento, mas sempre é bom ressaltar sua importância.

Caso você use uma planilha de cálculos para fazer seus controles, também pode implementar essas melhorias sem muita dificuldade.

- Valores negativos: o sistema não pode aceitar um valor menor que o último lançado, seja ele horas ou quilômetros.

- Variação esperada: o sistema não pode aceitar uma variação de horímetro maior que 24 horas por dia. Na verdade, com raríssimas exceções, um horímetro varia mais do que 20 horas por dia, pois existem paradas para troca de turno, almoço, jantar, etc. Da mesma forma é muito difícil que um odômetro de caminhão varie mais que 1000 ou 1200 km por dia. Esses critérios podem ser usados para detectar possíveis erros de digitação e podem ser configurados para cada máquina ou veículo.

- Variação nula: principalmente quando se trata de abastecimentos, a variação entre duas leituras de horímetro deve ser sempre maior do que zero. Na verdade, isso pode significar um erro de digitação, mas normalmente indica que o instrumento (horímetro ou odômetro) está quebrado.

- Aumento 10x: quando se esquece de colocar a vírgula no valor digitado o valor final normalmente será cerca de 10x maior do que deveria. Você pode ter um indicador que divide o número atual pelo último que foi lançado no sistema. Normalmente, essa divisão gera um valor bem pequeno, menor do que 1. Se ocorrer um valor maior, você poderá analisar os números e fazer uma alteração manual. É muito difícil estabelecer uma regra matemática para corrigir automaticamente esse tipo de erro, normalmente vai depender de análise e discernimento para se fazer a correção.

- Auditoria: é muito importante que, periodicamente, seja disponibilizada uma pessoa para coletar e corrigir todos os horímetros e odômetros do sistema. Por melhor que seja feito o controle, de tempos em tempos, é necessário checar os valores no campo e fazer um lançamento corretivo no sistema.

Ponto de ação

De todos os temas tratados nesse texto, a definição do PONTO DE AÇÃO talvez seja o mais importante, e o mais complicado de todos. Partindo do princípio que, cedo ou tarde, você vai receber valores errados é preciso criar critérios para disparar ações corretivas.

Esses critérios determinam o Ponto de Ação, ou seja, o momento que você terá que ir até a máquina e coletar uma informação confiável. O problema é que ir até a máquina ou caminhão quase sempre é um transtorno, hora porque estão distantes, hora porque não estão disponíveis, e etc. Então, você deve evitar ao máximo esse tipo de ação pois isso é inconveniente e oneroso.

Mas como se define o Ponto de Ação?

Quando se trata de medidores totalizadores, como é o caso de horímetros e odômetros, há uma característica que pode ser usada a seu favor: para todos os cálculos e controles apenas um número bom pode substituir vários números ruins e o resultado será o mesmo.

Veja o seguinte exemplo: você possui um equipamento cujo horímetro de ontem estava marcando 1230 horas. Por um erro de digitação, hoje você recebeu uma leitura de 124 horas. Por ser menor que a leitura do dia anterior, esse número deve ser descartado.

Nesse momento você tem duas alternativas: sair correndo atrás da máquina para coletar o número real ou aguardar mais um dia. É bem provável que no próximo dia você receba uma leitura com algo como 1244 horas, o que é bastante coerente. Perceba que nenhuma ação foi necessária. Como a soma do tempo é contínua, o próprio sistema se corrigiu. Para todos os cálculos decorrentes, como médias de consumo, tempo de manutenção e etc., o sistema está perfeito, ou seja, ficou errado apenas por um período aceitável de tempo.

O Ponto de Ação nada mais é do que definir qual é o período aceitável de tempo entre uma leitura ruim e uma boa. Existem equipamentos que são críticos, que não podem esperar, mas, para a maioria, você pode esperar vários dias até receber um valor confiável.

Nunca se esqueça que, conforme dito antes, os valores de horímetros e odômetros são qualitativos e não quantitativos. Algumas horas a mais ou a menos não são importantes do ponto de vista da máquina.

A maioria das tentativas fracassadas de controlar odômetros e horímetros falha exatamente nesse quesito, surge uma espécie de obsessão pelos números exatos e atualizados, o que é complicado, caro e muitas vezes desnecessário. É, ao final das contas, uma leitura equivocada do papel desses indicadores.

Repetindo o que já dissemos aqui, é mais fácil (e mais barato) corrigir um erro do que tentar evitar que ele ocorra a qualquer custo. E corrigir o erro na hora certa é ainda mais fácil e mais barato.

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