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Terça, 08 Setembro 2020 16:46

Quanto vou economizar com automação de abastecimento?

Nelson Luís Margarido

Nelson Luís Margarido

Dir. Industrial na Korth RFID Ltda
Engenheiro Mecânico pela USP São Carlos

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Sempre que uma empresa decide buscar um sistema de controle de combustíveis, a primeira pergunta que surge é essa: afinal, quanto esse sistema me trará de economia? Na verdade, essa é a pergunta mais importante que um gestor pode fazer, uma vez que ele precisa saber se o investimento valerá ou não a pena. Entretanto, a resposta a esta pergunta é bastante complicada.

Como fornecedores de sistema de automação de abastecimento há mais de 20 anos, temos experiência para afirmar que a resposta a esta pergunta depende de uma série de fatores e os números podem variar bastante. Temos clientes que conseguiram números bem impressionantes, acima dos 15%, e outros cujos resultados foram bastante menores. A diferença entre eles está na quantidade de combustível que era desviada antes da implantação do sistema, e esse é um número que ninguém conhece previamente e só ficará claro após o sistema estar operante.

De forma geral, todas as empresas que trabalham com diesel sofrem com desvios deste produto, mas quantificar o nível de desvios que ocorrem sem uma ferramenta adequada de controle é bastante difícil. Então, se você está pensando em implementar um sistema de controle de combustíveis, será necessário procurar “pistas” no seu processo antes de tomar uma decisão.

Comboios

De todos os pontos de desvios de combustível, os comboios e melosas são, com certeza, os mais vulneráveis. Esses equipamentos fazem abastecimentos longe de suas bases, sem supervisão, muitas vezes à noite e em locais ermos. Nesse caso, as condições favorecem muito a ocorrência dos furtos. Só para exemplificar, fazendo uma conta simples, suponha que temos um comboio com 4.000 litros, que abastece 20 máquinas por dia. Se para cada máquina forem desviados 2 litros, no final teremos um saldo de 40 litros, que correspondem a 1% do volume total do reservatório. Como está dentro das margens de tolerância e não irá aparecer em médias de consumo, medição com régua ou em qualquer outro indicador, essa diferença é indetectável... Aliás, mesmo sendo o dobro, tal seria indetectável.

Para um comboísta mal-intencionado, basta um tambor ou bombona estrategicamente posicionados na rota e alguns minutos de privacidade para se realizar o desvio. No papel, esses números nunca aparecem. Basta, para isso, que se aponte 1 ou 2 litros a mais por abastecimento e se deixe um saldo no tanque ao final do expediente. E não adianta pedir para os operadores e motoristas assinarem o borderô de apontamento, porque normalmente, enquanto a máquina está sendo abastecida, os operadores aproveitam para ir conversar com os outros trabalhadores e não acompanham o que está sendo feito. Muitas vezes, assinam a ficha antes mesmo do abastecimento ser concluído.

Nesse caso, as pistas que você pode buscar são os reservatórios, galões, bombonas e tambores. Se estiver trabalhando no campo, procure nas reservas de mata, em locais de pouco movimento ou nas proximidades de prédios pouso usados. Lembre-se que para realizar tal operação com segurança, o comboio deve estar fora de vista, escondido.

Se estiver trabalhando próximo de rodovias, procure em locais muito frequentados por caminhoneiros, como borracharias e barzinhos.

Uma outra evidência que pode mostrar esse tipo de desvio são encerrantes de medidores que batem com muita precisão. Você pode verificar isso somando todos os abastecimentos de um período e confrontar com a variação do encerrante. Sempre deverá haver uma pequena diferença, na ordem de 5 litros para cada 1000 litros abastecidos. Essa diferença ocorre por causa dos erros de medição (saiba mais aqui: http://www.korth.com.br/blog/erros-de-medicao-a-busca-pelo-numero-impossivel). Se não houver essa diferença, com os números batendo certinho, desconfie! Esse é um indicativo de que os números foram calculados e que não correspondem com a realidade.

Terceiros

Em muitos casos, o cliente final do combustível desviado são os fornecedores terceirizados que trabalham na mesma operação. Roubar combustível com a conivência de terceiros é muito fácil e muito seguro. Isso ocorre porque, diferente do roubo com galões e bombonas, o abastecimento de terceiros no meio da frente de trabalho é uma atividade normal e esperada, que não desperta desconfiança. Ocorre à vista de todos e ninguém se dá conta.

Para encobrir os números, basta que o comboísta ou frentista troque as fichas de abastecimento. Assim sendo, imagine que o comboísta abasteceu uma máquina própria com 100 litros e outra de terceiro com 150 litros. Para esconder a diferença basta que ele aponte o contrário. Simples assim. Não houve alteração de encerrante, não precisou fazer contas, foi feito na frente de todo mundo e ninguém percebeu... são só números.

De fato, esse é o tipo de desvio mais difícil de ser detectado e deixa poucas ou nenhuma pista. Mas pode haver uma evidência desse procedimento nas médias de consumo das máquinas. Normalmente, se você cobra do terceiro pelo combustível fornecido, suas máquinas serão mais econômicas. Se você fornece o combustível por empreita, essas máquinas serão mais gastonas porque o próprio terceiro vai retirar combustível do tanque após o abastecimento.

Um truque que alguns operadores terceirizados fazem, é adulterar o volume do tanque da máquina quando precisam devolvê-las com o tanque cheio. Nesse caso, eles podem colocar pedras dentro do tanque ou até algum dispositivo que simule a presença de combustível.

De forma geral, é melhor não exigir devolução das máquinas com o tanque cheio, pois o prejuízo trazido por esse tipo de fraude pode ser maior que o desvio de combustível em sí.

Sempre que possível evite abastecer máquinas de terceiros ou, pelo menos, isole a operação mantendo os abastecimentos separados.

Medição de nível

Medição dos níveis dos tanques reservatórios de combustível são um pouco complicadas e geram bastante confusão. Essa confusão pode abrir um caminho para possíveis fraudes, envolvendo o recebimento e os entregadores.

Dois são os principais problemas que envolvem a medição de nível: o primeiro é que a densidade dos combustíveis, principalmente do diesel, muda bastante com a temperatura. O segundo é que as dimensões dos tanques e as réguas de medição nunca são exatas.

A variação de densidade do diesel implica numa variação de volume na ordem de 1L/°C/1.000L (1 litro por grau Celsius para cada 1000 litros). Isso significa que, em um tanque de 30.000 litros, o volume do combustível aumenta cerca de 30 litros quando a temperatura sobe 1°C e diminui os mesmos 30 litros se a temperatura diminuir 1°C. Se a variação for de ±5°C, o volume total será alterado em ±150 litros.

Também, os tanques não são perfeitamente cilíndricos, podendo apresentar uma variação dimensional, e as réguas de medição apresentam uma resolução muito baixa (normalmente 2,5mm). O nível do tanque também se altera com o tempo, em decorrência do acúmulo de água e de detritos no fundo (em função da condensação de vapor de água dentro do tanque e entrada de poeira pelo respiro).

Assim sendo, dá pra perceber que saber exatamente os níveis dos tanques é uma tarefa um pouco mais complicada do que parece. O ideal seria usar um medidor eletrônico com alta resolução, que meça o nível de água e a temperatura do combustível constantemente, mas isso nem sempre está disponível nas empresas.

De forma geral, a soma desses fatores deve gerar um erro total na ordem de 1 a 2%. Isso quer dizer que, para um tanque de 30.000 litros, espera-se uma incerteza de ±300 litros na melhor das hipóteses.

Agora, se você quiser confrontar o nível com o volume medido pelo bloco medidor durante o abastecimento, terá ainda que somar o erro do bloco que normalmente fica entre ±0,2 e ±0,5%.

Todas essa incerteza gera dúvidas e abre brecha para as fraudes.

Desanimador não?
Mas no meio de toda essa complicação existem pistas que podem ajudar a detectar algumas fraudes.

Normalmente, o diesel sai das refinarias com uma temperatura média por volta de 22°C. Os caminhões por sua vez, carregam esse combustível em compartimentos de 10.000 a 15.000 litros e, mesmo que o transporte demore muito, dificilmente haverá uma alteração de temperatura significativa. O fato é que alterar 1°C a temperatura de um volume desses requer muita energia e demora muito tempo. Assim sendo, raramente se recebe um carregamento de combustível que esteja abaixo de 18°C ou acima de 25°C. Na verdade, considerando-se que vivemos num país quente, a tendência é receber volumes maiores e não menores. O mais correto é sempre medir a temperatura e a densidade do combustível no recebimento, mas, levando em conta que poucos fazem isso, a melhor estratégia é estabelecer um erro aceitável (máximo 1%) e desconfiar se o distribuidor sempre te entrega um volume menor que o esperado, mesmo que dentro da tolerância. Se vez ou outra isso ocorrer, você pode considerar que são os erros de medição; mas se ocorrer sempre deve desconfiar de fraude no transporte.

Uma vez que você já recebeu o combustível, ainda sabe que as temperaturas irão mudar enquanto estiver estocado. Porém, da mesma forma que no caminhão, para se alterar a temperatura de um volume grande de óleo são necessários dias de sol quente ou de frio congelante. Assim, se você notar que houve o desaparecimento de 600 litros de óleo de um dia para o outro, não caia na desculpa “Essa noite foi muito fria...” Uma noite muito fria deve gerar uma alteração de 30 litros!! Limpezas constantes, para se retirar água e terra do tanque, também são um indicativo de possíveis fraudes.

Por fim, por suas características construtivas, os blocos medidores normalmente erram para baixo, ou seja, somam um pouco menos do que realmente saiu pela bomba. Então, considere que isso é normal, e não motivo para desconfiança. Se, ao contrário, o bloco mostrar que saiu mais do que o esperado, pode ser necessário uma calibração.

Agora, com essas informações, você deve considerar quantas dessas situações apresentadas acima fazem parte do seu processo. Isso poderá te fornecer um indicativo de qual é a economia que um sistema de controle poderá te proporcionar e ajudar a dimensionar o investimento necessário.

As vezes, um simples aplicativo de controle como o Guardian App pode te ajudar a economizar 1 a 2%, em outros casos você poderá precisar de bocais anti-furto e medidores de nível e atingir resultados que justifiquem com folga os investimentos.

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