RECEBIMENTO DE COMBUSTÍVEIS – PARTE I

recebimento de combustíveis

RECEBIMENTO DE COMBUSTÍVEIS – PARTE I

O diesel evapora mais depois que o caminhão vai embora

Há muitos anos ouvi essa frase de um gerente de frota e nunca mais esqueci.
Na época achei engraçado. Depois percebi que aquela ironia dizia muito sobre a forma como encaramos
o recebimento de combustíveis.
Sempre que a medição do tanque não corresponde à expectativa, começam as dúvidas. Será que o
caminhão descarregou todo o produto? Será que houve algum desvio durante o transporte? Será que a
medição foi feita corretamente? Ou será que estamos exigindo de uma régua uma precisão que ela
simplesmente não pode oferecer?
Receber combustível parece uma tarefa simples. O caminhão chega, confere-se a documentação,
descarrega-se o produto e pronto. Na prática, porém, esse processo é muito mais complexo do que
parece. Entre a saída da distribuidora e o momento em que o combustível chega ao seu tanque existem
diversas etapas, cada uma com suas próprias limitações, incertezas e oportunidades para que ocorram
desvios.
Ao longo desta série vamos acompanhar esse caminho desde o carregamento do caminhão-tanque até
a conciliação dos abastecimentos. O objetivo não é criar procedimentos rígidos — cada empresa possui
sua própria rotina —, mas entender o que realmente acontece em cada etapa e mostrar onde vale a
pena concentrar a atenção.

Da distribuidora até o seu tanque
O carregamento na distribuidora

Quando o assunto é combustível, existe uma desconfiança quase automática de que toda diferença de volume tem origem na distribuidora. Felizmente, essa costuma ser a etapa mais confiável de toda a cadeia.

Distribuidores de combustíveis trabalham sob fiscalização da ANP, do Inmetro e de outros órgãos. Além das exigências de segurança operacional, seus sistemas de medição precisam atender a regras metrológicas rigorosas. O descumprimento pode resultar em multas, suspensão das atividades e até perda da autorização para operar.

Por isso, empresas sérias utilizam equipamentos de medição bastante confiáveis. Em condições normais, a diferença de medição costuma ficar abaixo de 0,2%, frequentemente entre 0,05% e 0,15%.

Outro detalhe pouco conhecido é que o volume carregado não é determinado pela tradicional “bola” ou pela seta existente no tanque do caminhão. Esses elementos funcionam como referências visuais. A medição efetiva é feita eletronicamente na base de carregamento.

O caminhão também é verificado

Os tanques dos caminhões-tanque passam por verificações periódicas. Nesse processo, sua capacidade é conferida com reservatórios calibrados e a posição da referência visual pode ser ajustada.

Em outras palavras: quando um caminhão sai de uma distribuidora confiável, existe uma boa chance de que esse seja justamente o ponto mais preciso de toda a operação.

Nunca abra mão da documentação

Além da Nota Fiscal, o carregamento deve ser acompanhado do Boletim de Conformidade do combustível.

Esse documento registra as características do produto e demonstra que ele atende às especificações aplicáveis. Se o fornecedor não apresenta o boletim, acenda um sinal de alerta. Combustível é caro, essencial para a operação e capaz de causar grandes prejuízos quando apresenta problemas de qualidade.

A viagem até o cliente

É depois que o caminhão deixa a distribuidora que a situação muda. O transporte passa a ser o primeiro elo realmente vulnerável da cadeia.

Na grande maioria das viagens nada acontece. Mas, como qualquer atividade que movimenta produtos de alto valor, existe a possibilidade de desvios durante o percurso.

Sempre que possível, trabalhe com transportadoras reconhecidas pela qualidade de seus processos. Certificações como ISO 9001, ISO 39001, ISO 14001 e SASSMAQ são bons indícios de organização e controle. Também vale privilegiar fornecedores próximos: quanto menor o percurso, menor o tempo de exposição a ocorrências.

Pequenas diferenças merecem atenção

Quando pensamos em desvios de combustível, normalmente imaginamos grandes volumes desaparecendo de uma única vez.

Na prática, isso é raro.

O mais comum são pequenas diferenças que, isoladamente, parecem irrelevantes: vinte litros hoje, trinta amanhã, mais alguns na semana seguinte.

Operações de abastecimento são repetitivas. Ao longo de meses ou anos, pequenas diferenças podem formar um valor bastante expressivo. Por isso, controlar combustível é muito mais um exercício de disciplina do que uma busca por grandes escândalos.

O chamado “chupa-cabra”

Entre os dispositivos conhecidos no setor está o popularmente chamado “chupa-cabra”.

Mais importante do que detalhar seu funcionamento é saber reconhecer os indícios de que uma válvula portinhola pode ter sido submetida a esforços anormais.

Durante a inspeção do caminhão, observe cuidadosamente essa região. Marcas incompatíveis com o uso normal não significam, por si só, que aquele carregamento sofreu algum desvio. Mas justificam uma verificação mais cuidadosa.

Figura 2 – Dispositivo popularmente conhecido como “chupa-cabra”. Imagem de circulação pública utilizada para fins ilustrativos.

Figura 3 – Exemplo do dispositivo acoplado à válvula portinhola. Imagem de circulação pública utilizada para fins ilustrativos.

Inspecionando o interior do tanque

Outro comportamento conhecido no setor envolve um dispositivo popularmente chamado de “tanquinho”. Pessoalmente, nunca encontrei um caso desse tipo durante uma inspeção. A descrição chegou até mim por profissionais experientes do transporte de combustíveis e serve principalmente como um alerta.

Felizmente, não é necessário conhecer o formato de um eventual dispositivo para perceber que alguma coisa não está certa.

Depois da descarga, abra as tampas de inspeção e observe cuidadosamente o interior dos compartimentos, sempre utilizando uma lanterna certificada EX para Zona 0.

A referência é simples: o interior do tanque deve ser exatamente o que ele aparenta ser por fora.

Um tanque de combustível é um compartimento construído com chapas metálicas relativamente finas. Internamente, espera-se encontrar superfícies lisas, curvas e contínuas, acompanhando o formato externo. Não é normal haver alças, ganchos, suportes, chapas adicionais ou qualquer outra estrutura estranha à construção do tanque.

Se alguma coisa parecer fora do lugar, vale interromper o recebimento e investigar melhor antes de concluir a operação.

Evaporação existe. Mas não explica tudo.

Durante o carregamento pode ocorrer uma pequena perda por vaporização.

Nos sistemas de carregamento inferior (bottom loading), especialmente quando há recuperação de vapores, essa perda é muito pequena. No carregamento superior (top loading), a turbulência é maior e a vaporização também pode aumentar. Mesmo assim, em condições normais, trata-se de uma parcela muito reduzida do volume carregado.

Quando uma diferença relevante é atribuída exclusivamente à evaporação, normalmente vale a pena investigar outras causas antes de aceitar a explicação.

Conclusão

Até aqui acompanhamos o combustível desde a distribuidora até a chegada do caminhão à empresa.

Vimos que existem controles rigorosos durante o carregamento, entendemos por que o transporte merece atenção especial e conhecemos alguns pontos que devem ser observados durante a inspeção do veículo.

Mas ainda falta responder a uma pergunta importante:

Mesmo que todo o combustível tenha chegado corretamente ao destino, como ter certeza de que ele realmente entrou no seu tanque?

É justamente esse momento que veremos na segunda parte da série, quando o caminhão estaciona para descarregar e um procedimento aparentemente simples começa a revelar muito mais detalhes do que a maioria das pessoas imagina.

Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies. Saiba mais