Blog
WhatsApp

Pesquisar no Site

Quinta, 05 Novembro 2020 07:00

Recebimento do combustível vamos nivelar essa conversa – Parte 1

Nelson Luís Margarido

Nelson Luís Margarido

Dir. Industrial na Korth RFID Ltda
Engenheiro Mecânico pela USP São Carlos

O procedimento correto para recebimento de combustíveis e suas medições talvez seja um dos assuntos mais complicados de se tratar em controle de abastecimentos. Não só para evitar fraudes ou roubos, um bom controle de recebimento é essencial para a conciliação dos dados de abastecimento no futuro.

As complicações todas partem das incertezas que cercam esse processo, gerando muitas dúvidas e conflitos desnecessários. Nesse blog, vamos iniciar do começo, no carregamento do caminhão tanque (CT) na refinaria ou distribuidor e seguir o trajeto do combustível nos demais pontos da cadeia, sejam eles no transporte, armazenagem e abastecimentos. Aqui, não temos intenção de implementar procedimentos específicos, visto que cada empresa possui seus próprios modelos de controle, mas sim explicar um pouco mais sobre o que acontece em cada etapa e fornecer indicativos para melhorar seus métodos de controle.

Distribuidores

De forma geral, distribuidores de combustível seguem procedimentos muito rígidos e são regularmente auditados e controlados pela ANP e outros órgãos. Não só pelo que tange a segurança operacional, afinal, combustíveis são materiais perigosos; mas também a parte metrológica segue regras bastante rígidas e, o não cumprimento dessas regras, pode acarretar perda de registro e suspensão dos trabalhos dessas empresas.

Assim sendo, essas empresas costumam ter equipamentos de medida bastante confiáveis e não têm interesse em fraudar os volumes em vista das punições que podem sofrer. Em distribuidores confiáveis, a medida do volume estará com tolerância abaixo de 0,2% (normalmente entre 0,05 e 0,15%). A seta e a “bola” constituem apenas indicadores visuais, sendo que o volume real é medido eletronicamente.

Outro detalhe importante é que os tanques dos caminhões de transporte são aferidos periodicamente pelo Inmetro. Nesse caso, a aferição é feita com água e o uso de reservatórios calibrados com alta precisão. Essa aferição obrigatória é feita a cada 2 anos com ajuste de posicionamento da seta de referência (seta de aferição). A aferição dos tanques garante que a capacidade nominal desses não varie mais do que 0,25%. Todos os CT devem ter certificado de verificação válido.

Os distribuidores também precisam fornecer o boletim de conformidade do combustível que está sendo vendido, onde constam todas as informações do produto. Jamais adquira combustível de empresas que não fornecem o boletim.

Sempre que puder, escolha transportadoras que estejam próximas a você. Como veremos adiante, os primeiros roubos ocorrem já durante o transporte entre a distribuidora e o cliente, então quanto menor for esse deslocamento, menores são as chances de fraude. Você também deve sempre optar por transportadoras que possuam certificados de qualidade como ISO 9001, ISO 39001, SASSMAQ e ISO 14001. Isso demonstra a seriedade da empresa e seu compromisso com os clientes.

Durante o carregamento pode haver uma perda por vaporização dos combustíveis. Nos caminhões equipados com sistema botton-load (carregamento por baixo) e recuperação de vapores essa perda é muito pequena, mas quando o sistema utilizado é do tipo top-load (carregamento por cima) a perda por vaporização é consideravelmente maior em função da turbulência do líquido e da falta de recuperação desses vapores. De qualquer forma, a perda por evaporação costuma ser muito pequena, menor do que 0,02% nos piores casos.

Aqui vale uma observação: destilarias de álcool menores e com controles menos rígidos, podem ser pouco confiáveis durante o carregamento, principalmente se carregarem o álcool com temperaturas muito altas acima dos 28°C. Normalmente esses problemas não ocorrem, mas vale a pena manter a atenção nesses casos. No carregamento de álcool quente, o nível deve ficar bem acima da “bola” até que o produto resfrie.

Transporte até o cliente

O trajeto entre a distribuidora e o cliente é o primeiro ponto da cadeia de combustíveis que é realmente vulnerável a desvios e furtos. Não só motoristas desonestos, mas também ladrões comuns podem “atacar” o CT.

Os ladrões comuns costumam aproveitar quando o motorista está fazendo uma refeição ou dormindo para retirar o combustível pela válvula de fecho rápido (portinhola). Muitas vezes não é necessário romper o lacre de segurança, uma vez que um pequeno movimento da válvula já permite que o líquido escorra lentamente. Mas o ladrão, que não tem compromisso com a empresa de transporte, também não terá problemas em romper o lacre e abrir a válvula para conseguir uma descarga mais rápida.

Já o motorista desonesto usa outros artifícios para roubar combustível. Ele não pode simplesmente romper os lacres de segurança porque terá problemas com o cliente e também não pode ficar esperando pelo escorrimento da portinhola de descarga. Então, com o tempo, foram inventados dispositivos engenhosos para desviar combustível. Os mais conhecidos são o “chupa-cabra” e o “tanquinho”.

O chupa-cabra é um dispositivo engenhoso para retirar combustível do CT sem deixar rastros. É basicamente um engate falso para a válvula portinhola, onde são montados uma válvula de esfera e um parafuso longo. O uso é simples: o ladrão encaixa o chupa-cabra na portinhola e com o parafuso ele empurra lentamente a portinhola até que essa comece a vazar. Quando isso ocorre, ele abre a válvula de esfera e remove combustível com o auxílio de uma mangueira.

O tanquinho é um reservatório pequeno que é colocado pelo motorista dentro do tanque do caminhão. As medidas do tanquinho, permite que o mesmo seja retirado através da tampa de visita, no lado superior do tanque do CT. Esse dispositivo é feito de tal forma que permite que seja preenchido durante o carregamento do caminhão, não afetando o nível apontado pela seta de referência. Porém, no momento da descarga, o tanquinho retém o combustível em seu interior que acaba não sendo descarregado no cliente. Após a descarga e longe do cliente o motorista remove o tanquinho cheio pela tampa de visita.

Como evitar esse tipo de fraude

Para saber se estão usando chupa-cabra você pode observar as portinholas do CT. Como a pressão exercida pelo combustível na portinhola é muito alta, é necessário que o parafuso faça bastante força para que a mesma permaneça aberta. Esse esforço gera marcas na portinhola incompatíveis com o uso normal desse dispositivo. Isso não quer dizer que o seu carregamento foi roubado, mas que esse procedimento vem ocorrendo e você poderá ser vítima também.

Para verificar a presença do tanquinho você vai precisar verificar os tanques vazios do CT com o auxílio de uma lanterna. Lembre-se que essa região é classificada como de alto risco de explosão em função dos vapores que permanecem dentro do tanque vazio. Assim sendo, a lanterna deve ter certificação EX para Zona 0. Você precisa dar uma boa olhada em todo interior do tanque e verificar se tem alguma peça com formato estranho lá dentro. O interior do tanque deve ser liso, metálico e arredondado.

Esse tipo de roubo é feito em pequenas quantidades, raramente sendo superior a 100 litros por tanque. Normalmente, essa diferença é argumentada como variação de volume devidoà temperatura. Por isso, é recomendável um bom procedimento de recebimento, sobre o qual falaremos no próximo post.

Esse texto foi escrito com a ajuda dos colegas da Ademir Transportes (http://ademirtransportes.com.br), que é uma das transportadoras de combustível mais bem conceituadas do país. Obrigado ao diretor Ademir Saraiva (Mizinho) pelo apoio.

Ler 1118 vezes