Certa vez um colega me disse uma frase que nunca mais esqueci:
“Relógios são a classe trabalhadora mais desunida que existe!”
Adoro essa frase porque ela revela uma ironia que pouca gente percebe. Apesar de todos os relógios estarem
vivendo exatamente o mesmo momento no tempo, dificilmente existem dois mostrando a mesma hora. A ironia aumenta quando ele chama os relógios de “classe trabalhadora”, afinal, é consenso que relógios “trabalham”.
Mas existe outro detalhe curioso.
Tecnicamente, os relógios não medem o tempo. Eles medem intervalos de tempo a partir de um determinado
evento. Quando você troca a bateria do relógio e o sincroniza com o celular, por exemplo, está dizendo a ele:
“considere que este é o horário correto”. A partir daí ele apenas começa a contar.
Seria então suficiente sincronizar todos os relógios do mundo?
Infelizmente, não.
Relógios diferentes medem o tempo de maneiras diferentes. Existem relógios solares, clepsidras (se você não
sabe o que é, precisa ler Asterix & Obelix), ampulhetas, relógios mecânicos, eletrônicos, de quartzo, atômicos e muitos outros. Cada um utiliza uma referência diferente e, por isso, inevitavelmente começam a divergir com o passar do tempo.
Mais interessante ainda: até dois relógios absolutamente idênticos, fabricados no mesmo instante e sincronizados lado a lado, acabarão apresentando pequenas diferenças algum tempo depois. Essa divergência faz parte da própria natureza do sistema de medição.
E é justamente aqui que começa o problema dos horímetros.
Ao longo das últimas décadas surgiram diversas maneiras de medir as horas de funcionamento de um motor.
Alguns horímetros eram puramente mecânicos, acionados por cabos ligados ao motor. Depois vieram versões
eletromecânicas e, mais recentemente, eletrônicas.
Todos cumprem seu papel. Mas nenhum deles tem como objetivo oferecer uma medição de tempo comparável à de um relógio atômico.
Na verdade, nem precisam.
O horímetro foi criado para indicar, de forma suficientemente confiável, quando um motor deve receber
manutenção. Para um rolamento, por exemplo, pouco importa se ele trabalhou 2.000 ou 2.010 horas. O importante é que sua substituição aconteça próximo do intervalo recomendado.
Pensando como um engenheiro que projeta uma máquina, faz todo sentido: por que investir em uma precisão que a própria aplicação não exige?
Até aqui, tudo parece perfeitamente razoável.
O problema aparece quando esse mesmo número deixa de servir apenas para manutenção e passa a alimentar um sistema de gestão.
Nesse momento, aquelas pequenas diferenças começam a ganhar importância.
Consumo médio em litros por hora.
Produtividade da máquina.
Planejamento de manutenção.
Indicadores de desempenho.
Todos esses cálculos dependem do horímetro. E, quando diferentes equipamentos apresentam valores diferentes para a mesma máquina, nasce uma pergunta simples:
Qual deles está certo?
A resposta é igualmente simples.
O correto é utilizar a informação onde ela nasce.
Nas máquinas modernas, o valor oficial do horímetro é gerado pela unidade de controle eletrônico do motor (ECU) e disponibilizado na rede CAN através do protocolo SAE J1939. Se essa informação já existe na origem, faz muito mais sentido buscá-la diretamente ali do que depender de dispositivos paralelos tentando reproduzi-la.
É exatamente esse o princípio do nosso horímetro KT49 CA J1939.
Instalado diretamente no conector de diagnóstico da máquina, ele faz a leitura do valor original armazenado na ECU e o disponibiliza via Bluetooth para tablets, smartphones e outros dispositivos responsáveis pela coleta de dados em campo.
O resultado é imediato.
Todos passam a trabalhar exatamente com o mesmo número.
Desaparecem as divergências entre horímetros, eliminam-se erros de digitação e aumenta significativamente a qualidade das informações utilizadas pelo sistema de gestão.
Existe ainda outro benefício importante.
Como o equipamento consulta novamente a ECU sempre que é energizado, não existe necessidade de
sincronizações manuais. Mesmo que seja removido durante uma manutenção ou substituído por outro
equipamento, ao ser reconectado ele recupera automaticamente o valor correto do horímetro.
No fim das contas, talvez meu amigo estivesse certo.
Os relógios continuarão sendo uma classe trabalhadora bastante desunida.
Mas, pelo menos quando falamos dos horímetros das máquinas, finalmente todos passam a consultar a mesma fonte. E, em gestão, existe uma regra que vale ouro:
Nada é melhor do que existir apenas uma única versão da verdade.



